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Da Justiça do Funchal ser Património Após a
redescoberta do arquipélago da Madeira em 1418, o Povoamento
organizado das ilhas foi encetado em 1425; e poucas décadas depois,
o Funchal conheceu um expressivo crescimento urbanístico, no sentido
Leste – Oeste, espraiando-se desde o burgo primitivo de Santa Maria
Maior, até abarcar todo o espaço entre as três ribeiras que desaguam
na sua ampla e acolhedora baía. Esta rápida expansão da cidade, que se deveu,
essencialmente, ao grandioso desenvolvimento económico, social e
artístico proporcionado pela frutuosa exploração do açúcar – então
alcunhado de ouro branco -
foi reconhecida por D. Manuel I, que distinguiu e honrou os
funchalenses, ao legislar, por alvará de 17 de Agosto de 1508,
que a Câmara Municipal do
concelho fosse governada
pela mesma maneira por que se rege a de Lisboa. Quatro dias depois, por Carta Régia de 21 de
Agosto de 1508, esse monarca elevou a Vila do Funchal ao estatuto de
cidade,
com todos os privilégios e
insígnias das demais cidades do Reino. Ao abeirar-se o quinto centenário desses
memoráveis acontecimentos, somos de opinião que os madeirenses
deveriam desenvolver diversas iniciativas e diligências, para
demonstrar que - tal como sucedeu com a cidade açoriana de Angra do
Heroísmo - a zona histórica do Funchal desfruta de notáveis
condições monumentais, e de todos os pergaminhos dum passado
magnificente, absolutamente dignos para ser reconhecida pela
UNESCO, como Património Mundial da Humanidade.
Por outro lado a maioria dos historiadores
afirmam que foi no Funchal que se desencadeou a fase inicial do
fenómeno da globalização. Acresce que, entre De salientar ainda, que nos séculos XV e XVI, o
porto do Funchal desempenhou um papel primordial na expansão e nas
grandes descobertas ultramarinas, pois foi a porta de saída e a
charneira nas rotas e nos contactos da Europa com a África, a
América e a Ásia; funcionando desse modo como verdadeira ponta de
lança dos Descobrimentos Portugueses. Foi também na Madeira, e sobretudo no Funchal,
que os marinheiros e pilotos nacionais se iniciaram na aplicação das
técnicas modernas e no aperfeiçoamento das experiências de navegação
em alto mar, que poucas décadas depois possibilitariam que os
portugueses fossem o primeiro povo do mundo, que se implantou nos
quatro cantos do Planeta. A influência da ilha foi ainda determinante para
que Cristóvão Colombo descobrisse a América, pois esse famoso
navegador aprendeu no Funchal novas técnicas de navegar no
Atlântico, e conviveu com muitos marinheiros madeirenses, que lhe
deram preciosas informações sobre os numerosos indícios da
existência de terras a Poente. Foi também no nosso arquipélago que
Colombo conheceu e estudou as cartas de marear de Bartolomeu
Perestrelo, seu sogro e capitão-mor do Porto Santo; factos que
contribuíram, decisivamente, para o seu ambicioso plano de traçar
pelo Ocidente, o caminho marítimo para a Índia. Foi também na Madeira, nomeadamente no Funchal,
que foram experimentadas, testadas e aperfeiçoadas as
Capitanias, como modelo de organização e de gestão territorial,
sistema que anos depois o Poder Central, pôs em vigor em todo o
mundo onde assentaram e se estabeleceram os portugueses. Este papel de vanguarda do
Funchal foi tão determinante que o célebre historiador Charles
Verlinden não hesitou em afirmar que, no séc. XV, a Madeira e o
porto do Funchal foram «o verdadeiro centro da expansão atlântica portuguesa». No mesmo sentido, o famoso Frederic Mauro
mencionou que, nesse período, o arquipélago e o porto do Funchal «podem ser considerados o centro de gravidade do Atlântico». Por outro lado, aproveitando o portentoso
crescimento do seu orçamento pessoal, ao receber como tributo o
quarto de todo o açúcar produzido sobretudo no Funchal, o Infante D.
Henrique - que além de senhorio da Madeira era protector da
Universidade de Lisboa - modernizou essa Instituição,
introduzindo-lhe profundas reformas, nomeadamente a criação das
aulas de Matemática e Astronomia, que foram verdadeiramente
decisivas para os avanços científicos da navegação pelos astros, que
tornaram possível a gesta dos Descobrimentos Portugueses.
Foi também no Funchal, que
Diogo Teives inventou o engenho mecânico movido a água, que pouco
depois seria aplicado no fabrico do açúcar, máquina que além de
aumentar decisivamente a produtividade, permitiu encetar a nível
mundial, a primeira etapa da Revolução Industrial, também conhecida
por Revolução Ecológica. Na verdade, nos engenhos da Ilha passou a
praticar-se o método moderno da produção em cadeia, a utilização de
ferramentas específicas, e a automatização, e divisão do trabalho,
ou seja tarefas parciais e segmentadas -
tudo típico do modo de produção industrial. Lembrar também, que foi no Funchal que, a partir
do século XVII, floresceu pela primeira vez em todo o mundo a
exploração do Turismo,
numa época e num tempo em que este vocábulo nem era conhecido como
sinónimo de qualquer actividade económica. Acresce, que como consequência do enriquecimento
proporcionado com a comercialização do açúcar, a nobreza madeirense,
organizou numerosas expedições para a conquista de Praças no Norte
de África, nomeadamente Castro Real, Safin, Arzila, Santa Cruz do
Gué e Azamor, onde, por vezes, as forças do capitão-mor do Funchal
só eram excedidas pelo exército real e pelas hostes do Duque de
Bragança. De igual modo foi importante a contribuição do
Funchal na tarefa do descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia,
e depois na conquista de feitorias portuguesas no Oriente, onde
muitos madeirenses se salientaram ao comando das suas caravelas,
como por exemplo Rodrigues de
Noronha, capitão-mor do Mar da Índia e comandante de Ormuz;
Lopo Mendes de Vasconcelos,
cunhado de Vasco da Gama e o seu filho
Manuel de Vasconcelos
herói do cerco de Diu, e capitão de Cananor e Moluco;
António de Abreu
companheiro de Afonso de Albuquerque nas conquistas de Malaca e de
Ormuz, que ficou célebre por ter alcançado as Molucas, em 1511, e
sobretudo, por ter descoberto a Austrália; e ainda
Jordão de Freitas, que
pelejou em Mombaça, participou na armada que, em 1531, atacou Diu; e
pouco depois, em 1534, seria capitão da fortaleza de S. João na ilha
de Ternate, donde após afastar os castelhanos, controlou a produção
e comercialização do cravo das Molucas; tendo sido dono e senhor de
duas ilhas desse arquipélago: Amboino e Sirão. Por tudo o exposto, não surpreende que o famoso
historiador Braudel tivesse apelidado de
Mediterrâneo Atlântico
a este novo mundo insular, cuja cidade mais desenvolvida foi o
Funchal, e escrevesse: - «A
vida exterior das ilhas e o papel que desempenharam no primeiro
plano da cena da história, é de uma amplitude que não se esperaria
de mundos tão pequenos. A grande história, com efeito, passa
frequentemente pelas ilhas; acaso seria mais justo, talvez, dizer
que se serve delas». Além de todos estes relevantes pergaminhos
históricos, e apesar da devastadora delapidação de muitas
preciosidades, a zona
histórica do Funchal ainda possui um conjunto de monumentos
dignos duma Cidade Património
Mundial da Humanidade. Desde logo referir que está servida por uma rede
de excelentes museus, com ricos conjuntos de peças artísticas, dos
quais começamos por salientar o
Museu de
Arte Sacra do Funchal, que
é possuidor duma das mais representativas colecções de Pintura
Flamenga existentes no Mundo, e ainda de preciosas pinturas
portuguesas dos séculos XV e XVI, retábulos, mobiliário, cerâmica,
azulejos, ourivesarias, tapeçarias, esculturas, e outras requintadas
obras de arte. Da Arquitectura dos séculos XV e XVI, o Funchal
possui a magnífica Sé, com
o seu fabuloso tecto mudéjar, o rico púlpito, o cadeiral, e a
majestosa capela-mor com um excelente políptico de doze painéis
flamengos; e ainda a Igreja e o Convento de Santa Clara, onde estão sepultados os três
primeiros capitães da Capitania do Funchal, com paredes revestidas
de maravilhosos azulejos flamengos e hispano-mouriscos, e um notável
sacrário de prata do Séc. XVII; a
Torre do Palácio de São
Lourenço, com uma típica cantaria manuelina;
Parte do Edifício da Alfândega
Nova, onde se ergue um raro tecto de alfarge e belas arcarias e
portais góticos; a esplêndida
Igreja da Encarnação; e ainda os soberbos vestígios arqueológicos,
expostos no Museu da Quinta
das Cruzes, nomeadamente pias baptismal, janelas e cantarias da
época do esplendor açucareiro. Da Escola Barroca dos séculos XVII e XVIII
destacamos a fascinante Igreja
do Colégio, com quatro elegantes esculturas em nicho na fachada,
e recheada de ricas decorações de talha dourada, provenientes da
oficina do célebre Brás Fernandes; e também as igrejas do
Carmo, de São Tiago e
de São Pedro; as capelas de Santo
António da Alfândega e da
Senhora das Angústias; as três
Fortalezas da Baía do Funchal;
e o majestoso Forte do Pico.
Lembramos ainda o mobiliário, pinturas, pratas, imagens,
tapeçarias e porcelanas expostas na
Casa Museu Frederico de
Freitas e no Museu das
Cruzes; algumas casas senhoriais de que são exemplo os palácios
de São Lourenço e do Conde de
Carvalhal (hoje C.M.F), e os palacetes onde estão instalados o
Tribunal de Contas e o Tribunal de Família. Do estilo neoclássico, escolhemos a título de
exemplo, a Igreja Inglesa da
Sagrada Trindade; e o palacete do Cônsul Inglês Henry Veitch,
hoje sede do Instituto do Vinho da Madeira. Do século XIX e do Romantismo, invocamos o
Teatro Municipal Baltazar
Dias, o Reid’s Hotel,
e as maravilhosas Quintas do
Funchal, tão soberbas e singulares, que por si só seriam dignas
duma classificação autónoma de Património Mundial. Por fim, do século XX, recordamos o
Liceu do Funchal e o
Mercado dos Lavradores ao
gosto Arte Deco e da autoria do arquitecto Edmundo Tavares; alguns
significativos exemplares do estilo Estado Novo como o
Palácio de Justiça e o
Banco de Portugal; o
moderno Casino
Park Hotel da autoria do célebre Óscar Nimeyer; e ainda as
esculturas de Francisco Franco, Leopoldo Almeida e Anjos Teixeira. Finalmente, destacamos um amplo conjunto de
fontanários e de residências funchalenses dos séculos XVII e XVIII,
com os seus óculos de
pedra nas paredes, as torres de avista-navios, varandas de cantaria,
o lagar de cocho no rés-do-chão, os mirantes, balcões, casas de
prazer, e tectos de estuque, de que ainda abundam harmoniosos
exemplares na zona velha de Santa Maria, e nas ruas da Alfandega, do
Esmeraldo, dos Netos, dos Aranhas, das Mercês, das Pretas, da
Mouraria, dos Ferreiros, da Carreira, da Conceição e do Bispo. Com essa honrosa distinção beneficiaria em
primeiro lugar a humanidade, que ficaria mais enriquecida, com a
preservação e partilha duma cidade, que se distinguiu por ser um dos
marcos mais representativos duma época em que os portugueses e os
madeirenses deram novos mundos ao Mundo, e muito contribuíram para a
afirmação do homo sapiens,
que contrapôs às autoridades escolásticas um eloquente
vi muitas vezes visto,
como exclamava Luís de Camões. Honraríamos também os nossos antepassados, que
com heroísmo e muito sacrifício, realizaram um conjunto de obras
valorosas que engrandeceram o arquipélago e a zona histórica do
Funchal. Essa distinta consagração contribuiria ainda para
defender, restaurar e enriquecer o nosso património histórico e
monumental, galvanizando a participação dos madeirenses, com a
finalidade de impedir que essa valiosa herança volte a ser
descaracterizada ou vandalizada. Por outro lado, aquela nomeação seria um factor
de permanente dinamização da cultura, através da realização de
exposições de pintura e de escultura, da organização de consertos de
orquestra e de solistas, e do fomento de colóquios, conferências, e
outras iniciativas nas artes, nas letras e nas ciências, ao serviço
da Madeira, da população insular, e do seu desenvolvimento
qualitativo. Acresce que expandiria, significativamente, a
actividade turística em todas as suas vertentes; e por consequência,
também determinaria o crescimento do artesanato, da hotelaria, da
restauração, dos bordados, dos vimes, e das outras actividades
industriais e comerciais de apoio ao turismo. Finalmente, a dignificante
classificação de Funchal
Património Mundial da Humanidade, potenciaria a auto-estima de
todos os madeirenses, emigrantes ou residentes no arquipélago,
condição importante e imprescindível para garantir um
desenvolvimento harmonioso, e para vencer muitos dos desafios do
presente e do futuro.
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