Ainda a Crise do Capitalismo

 

«Fortunas como a de Mesquita Machado há na actual classe política quase aos pontapés e com a mesma dificuldade de explicação; negócios obscuros como os do BPN, já se sabe, pululam como coelhos pelo sistema financeiro».

 Eduardo Dâmaso, no «Correio da Manhã» de 15/02/09.

 

1 - Conforme tentamos provar no último número do «Garajau», a crise económica e financeira sistémica do capitalismo estalou e prosseguiu com grande intensidade no País, no Mundo, e na nossa Região.

Todavia, é justo lembrar que muito antes dela, as políticas neoliberais de direita postas em prática pelos governos do PSD e do PS de Sócrates, já estavam conduzindo o País à recessão, ao galopante alastramento do desemprego, ao agravamento das injustiças sociais, e à intensa flagelação da classe média, em benefício de um punhado de magnates, alguns deles perigosamente corruptos e criminosos, como todos os dias, aqui e agora, estamos certificando.

Também na Madeira, valha a verdade assinalar, que em resultado da falência do modelo de desenvolvimento posto em prática pelo «jardinismo»; muito antes da crise típica do sistema capitalista mundial, já todo o sector produtivo da economia regional desacelerava e estagnava; crescia a forte dependência externa; o desemprego aumentava; e a classe média bem como os trabalhadores sofriam dificuldades acrescidas, enquanto a pobreza ia grassando como «nódoa de azeite».

É também uma verdade dura e crua, que a crise estrutural intrínseca do capitalismo, não é directamente responsável pelos preocupantes e crescentes fumos de corrupção; pelo facto do porto do Funchal ser um dos mais caros do mundo; pelo esbanjamento dos dinheiros públicos no futebol profissional, em parques industriais às moscas, ou em «elefantes brancos» como o do Lugar de Baixo e os Reis Magos; nem sequer pelos milhões e milhões delapidados em obras eleitoralistas feitas sem rigor e à pressa, acompanhadas por inquietantes atentados ao meio ambiente, ao património, e às belezas naturais da nossa terra.

 

2 – Contudo, também é certo que a crise mundial do capitalismo vem agravando esses constrangimentos herdados do passado recente, sem que os governos centrais e locais - para além de continuarem a apadrinhar os grandes capitalistas, os banqueiros, e as seus «tiques de casino», ou seja os mesmos de sempre - ponham em prática instrumentos fiscais e financeiros de sentido transformador, humanista, e progressista, capazes de acudirem às dificuldades das pequenas e médias empresas, fomentar o emprego, e lutar contra a pobreza, o desemprego, os baixos salários, a iliteracia, e a exclusão social.

E se é verdade que conheço pequenos e médios empresários, que apesar das enormes dificuldades, lutam, desmedidamente, para salvar as empresas, e preocupam-se em cumprir com os direitos dos seus trabalhadores; é também certo que tem aumentado, assustadoramente, os «patos bravos» e os «chicos espertos», que a pretexto da crise, e gozando de total impunidade e até de estranhas protecções, intensificam os abusos, a opressão e a exploração.

Com o maior descaramento, multiplicam-se as falências fraudulentas, despedimentos colectivos ilegais, salários em atraso sem qualquer justificação, especulativas reduções da actividade laboral (lay off); recibos verdes passados a reais trabalhadores e assalariados; assinaturas de contratos de trabalho, juntamente com a sua rescisão, para despedirem sempre que lhes der na gana; limitações dos direitos; reduções de salários sob a ameaça de despedimento; horas extraordinárias não pagas; e até pressões psicológicas, humilhações e atentados contra à dignidade dos trabalhadores, para os pressionarem ao despedimento sem direitos.

Chegou-se até à pouca-vergonha e ao impudor de multimilionários como Américo Amorim, com uma fortuna de 3.106 milhões de euros, despedir 193 assalariados; e Belmiro Azevedo, senhor de 1.722 milhões, também dispensar outros 42, e ameaçar, para breve, muitos mais despedimentos colectivos!!! E mesmo assim - talvez por isso mesmo - os governos centrais e regionais nem sequer decretam simples leis que proíbam que todos os empresários que tiveram lucros ou benefícios financeiros, possam despedir os seus trabalhadores, lançando milhares de cidadãos na mais descalça pobreza!!!

 

3 – Na Madeira, o Carnaval já passou há algum tempo, mas no CDS/PP, o seu indizível vereador eleito para a Câmara Municipal do Funchal reincidiu em ser o causídico dos interesses de grandes e poderosos promotores de obras polémicas e muito discutíveis… Todavia, prova e atesta que não violou a lei das incompatibilidades, como se para a mulher de César e para a política não bastasse ser sério, e não fosse também necessário parecê-lo! … Em sua defesa poderá até invocar as resmas de exemplos ruins que o teriam encadeado, tais como inclassificáveis alterações dos PDM, e quejandos… Então, como dizia o outro, a regra não tem sido: - «É fartar, vilanagem»?

E porque se aproximam eleições, e também urge distribuir os «tachos» a preceito, em certas alfurjas de oportunistas e falsos socialistas, preparam-se «golpadas» contra os corajosos e honestos socialistas, Drs. João Carlos Gouveia e André Escórcio.

No PSD, embora em «lume brando», inquietos apaniguados de alguns delfins, tentaram, aparentemente sem sucesso, «empurrar» o Dr. Miguel Albuquerque para bem longe, lá para o inofensivo Parlamento Europeu … È que não vá o diabo tecê-las…

Entretanto, perante a total inércia governativa, o desemprego real já rondará os 9%, com a inovação de para além dos trabalhadores do comércio, do sector secundário, e da agricultura, surgirem agora centenas de jovens licenciados nessa situação, cujo único recurso passou a ser a emigração, tal como acontecia nos negros anos da ditadura. Para fazermos uma pálida ideia da gravidade da conjuntura, e mesmo sabendo que muitos desocupados nem se alistarem, basta lembrar que no início de Março estavam inscritos no Centro de Emprego 9.932 desempregados, quando em Julho de 1982 eram 3.692; e no último censo do regime fascista os desempregados inscritos não passavam dos 3.153 !!!

 

E assim, desta forma inefável , «cantando e rindo, e levados, levados, sim»; lá vai desfilando a Autonomia Política, que tanto nos custou a conquistar!…

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