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Quando em Abril de 1961 fui convocado para me
apresentar no «Regimento de Infantaria nº4», em Faro, para comandar
um pelotão da «Companhia de Caçadores 167», comandada pelo então
capitão Mário Firmino Miguel,
mobilizada para combater em Angola; após uma curta hesitação
determinada pelo facto de já ser um defensor dos direitos dos povos
à Autodeterminação e à Independência, decidi partir para essa guerra
e não refugiar-me no estrangeiro, porque entendi que tinha o dever
de ser solidário e acompanhar os jovens da minha geração que
abalavam para as colónias ao serviço de Portugal e das Forças
Armadas Portuguesas.
Deste modo, integrado no Batalhão de Caçadores
159, chefiado pelo tenente-coronel madeirense
Carlos Fernando Teixeira da
Câmara Lomelino (que faleceria no «Colonato do Vale do Loge» em
12 de Outubro de 1961, num trágico acidente em que foi decapitado
pela hélice do avião donde acabara de apear-se), embarquei no porto
de Lisboa, a bordo do navio «Vera Cruz», a 28 de Junho de 1961,
tendo chegado em Luanda no dia 7 de Julho; e só tendo regressado
definitivamente a casa em 9 de Dezembro de 1963, ou seja dois anos e
meio depois.
Assim, com apenas 25 anos de idade comandei em
terras angolanas, o 1º pelotão da «Companhia de Caçadores 167»; e
vinte meses depois, não obstante estarmos em combate e ainda ser
muito jovem, passei a comandar essa Companhia, em substituição do
heróico e brilhante militar que foi o capitão
Mário Firmino Miguel, que
regressou à metrópole para frequentar o curso do Estado Maior do
Exército, e que faleceria, em 1991, com o posto de general, num
funesto acidente de viação ocorrido na marginal de Cascais.
Após um mês de operações nos arredores de Luanda,
nomeadamente no «Grafanil», «Viana», «Catete»,
«Cassoneca», «Tonhe-Ia- Xira», «Tender- Ia- Xico» e «Vale do
Rio Calucala», onde amargamos o
«baptismo de fogo» e
carpimos a primeira morte em combate dum camarada do Batalhão; em 12
de Agosto de 1961, partimos para o Norte de Angola, passando por «Ambriz»,
«Quibala» até ao «Toto».
Daí
a «Companhia de Caçadores 167», depois duma silenciosa progressão
nocturna a pé, conquistou, de surpresa, o «Colonato do Vale do Loge»,
fazendo alguns prisioneiros, mas sem destruir o Hospital e cerca de
uma centena de casas, dos seus infelizes habitantes, que se
refugiaram nas florestas, sem mortos, porque decidimos não os
flagelar com as nossas armas pesadas.
Permanecemos alguns meses nessa região onde
sofremos muitas emboscadas, e bastantes baixas em combate, nas
contínuas patrulhas que realizávamos a pé ou em viaturas, nas
«picadas» e no «mato» dos arredores do «Vale do Loge», «Nova
Caipemba» «São José do Encoje», «Bembe» e «Rio Lufua». De todas
essas penosas acções jamais esqueceremos mais de três horas debaixo
de fogo cerrado disparado do alto de três zonas, com as nossas
forças encurraladas nas margens do «Rio Loge», onde sofremos mortes
e feridos, e se notabilizou o heroísmo de muitos camaradas,
nomeadamente a secção de morteiros, e a valentia e notáveis
qualidades de chefia do querido comandante e camarada Mário Firmino
Miguel, que mais tarde seria condecorado com a «Medalha de Prata de
Valor Militar Com Palma».
A partir de Fevereiro de 1962, durante cerca de
quatro meses, amargamos os tormentos e perigos de muitas emboscadas
e pelejas em torno de «Quipedro», «Rio Lué» e «Forte República», até
que depois de passado mais dum ano de combates regressamos a Luanda,
com a esperança de sermos destacados para uma região mais pacífica.
Nessas circunstâncias, vim de férias a Lisboa,
onde casei, e trouxe a minha jovem esposa para Angola. Todavia, em
Julho de 1962, inesperadamente, a minha Companhia foi novamente
enviada para o «caldeirão» do Congo, para onde, contra a minha
vontade, a minha corajosa cônjuge
Aida Maria de Brito Figueirôa
Teixeira Góis Nepomuceno fez questão de ir ter comigo; tendo
sido uma das únicas mulheres portuguesas que sofreram os rigores e
os riscos das frentes de guerra no Norte de Angola, mesmo depois de
ter nascido a nossa filha mais velha.
Durante
mais de seis meses voltamos a ser flagelados por numerosas
emboscadas com baixas, e também passamos a sofrer o flagelo do
rebentamento de minas colocadas nas «picadas» dos arredores do «Ambrizete»,
«Casa da Telha», «Tomboco» «M´Pozo», «Rio Lucunga» e «Lufico».
Por fim, os últimos meses da nossa longa comissão
em terras de Angola foram passados nas regiões mais tranquilas, de «Cacuso»,
«Malange», «Pungo Adongo», e minas do «Saia» e da «Quitota».
Ainda hoje e enquanto for vivo, tenho no coração
e na lembrança todos os queridos oficiais, sargentos e soldados da
minha «Companhia de Caçadores 167», e de forma muito especial e
carinhosa, recordo os mortos em combate: - alferes
Paulo de Freitas Barros,
furriel António Mendes Ribeiro,
e soldados Amilcar dos Santos
Marreiros e Custódio Alves;
e ainda os feridos em acção: - furriel
José do Vale da Silva, 1º
cabo Álvaro Luís Ventura,
e os soldados José Bernardo
Albano, José Manuel Cavaco
Coelho, David Arcanjo das
Neves Mendonça, José
Manuel Caliço Garrão,
Paulino Soares, Armando dos Reis Duarte Milho, e
Ivo Severiano.
Termino
afirmando que apesar de haver estado 31 vezes «debaixo de fogo» e
ter visto morrer alguns dos meus queridos camaradas, ceifados pelas
balas dum «inimigo» que bem sabia que lutava pelos direitos do seu
povo; e embora tivesse sofrido os limites mais fundos do perigo, da
violência, da angústia, da ansiedade, da fome, da sede e do cansaço;
continuo a pensar que cumpri o meu dever para com o País, lamentando
apenas que tantas vidas tivessem sido sacrificadas numa guerra
cruel, que nunca devia ter acontecido.
E é precisamente em sentida homenagem aos bravos
e queridos camaradas da «Companhia de Caçadores 167», que após
folhear o meu velho álbum de recordações de guerra, divulgarei
algumas fotografias desses tempos conturbados, expressando o desejo
que a juventude da minha terra preserve a Paz, e cultive para
sempre, o respeito pela Autodeterminação dos povos de todo o mundo.
Album de Fotografias:
Guerra Colonial de Angola - Companhia de Caçadores 167
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